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sexta-feira, agosto 24, 2012

O Erro de Cecília


O "restauro" do fresco feito por Cecilia Giménez, de 81 anos, ao original de Elías García Martínez está a originar uma verdadeira peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, em Espanha.
            Passada a impressão inicial, a que nos levou a lançar as mãos à cabeça, analisemos este fenómeno com a acuidade que ele merece. D. Cecília, pintora menos do que amadora – infantil até – lançou-se ao restauro com materiais impróprios. Acabou por transformar o original numa imagem completamente diferente, nada realista, uma figura indefinida.
            Os admiradores da pintura de Elias Martínez devem ter ficado chocados. Mas se é verdade que esta idosa de Borja destruiu, não nos será permitido pensar que D. Cecília também criou?
            D. Cecília Giménez destruiu o Passado, uma figura pictórica realista, um retrato definido ao pormenor, representativo; para colocar por cima um Presente, um novo olhar, o seu ponto de vista.
            O que é que está agora no Santuário em Borja? Uma obra danificada ou outra coisa? Depende do ponto de vista, obviamente. Mas seguramente existe agora um novo artefacto: o erro de D. Cecília. Neste momento o erro tem um valor próprio, uma dimensão cultural e já foi apropriado socialmente. Nas redes sociais da Internet há dezenas de milhar de pessoas que se manifestam no sentido de que se mantenha a imagem como está. Centenas de visitantes querem vê-la.
            O erro de D. Cecília tem mais valor (social e, provavelmente, económico) do que a pintura original de Elias Martínez. Foi um erro muito bom. Está a beneficiar o Santuário e a localidade de Borja.

sábado, julho 14, 2012

Cinco "sentenças" sobre arte


1.      Arte é uma definição cuja aplicação depende de critérios mais ou menos explícitos validados ou não por uma comunidade socialmente reconhecida como detentora de autoridade técnica, interpretativa e institucional.
2.      Estética é o conjunto de práticas de construção e desconstrução de significados que têm por origem a informação sensorial.
3.      As práticas estéticas não são exclusivas de nenhum grupo social em particular. São universais. Fazem parte do sentido que fazemos do mundo circundante e acompanham todas as actividades humanas.
4.      A arte é uma tecnologia, isto é, um domínio específico da actividade humana dirigido à transformação da matéria. Mais, procura transformar a matéria com o intuito de dizer algo. É uma tecnologia de comunicação.
5.    Os objectos reflectem o mundo social circundante. Os critérios formais de cada objecto (as propriedades que o produtor fez nascer e aquelas que o receptor percepciona) são produto dos esquemas cognitivos partilhados pelo grupo que lhe dá vida social. É importante salientar que os padrões que servem para ajuizar a concepção e interpretação de objectos estão presentes em todas as actividades humanas. Isto quer dizer que uma conversa com o vizinho do lado, a aquisição de mobiliário para a sala, fazer o jantar ou pintar um quadro são práticas que dependem da mesma substância cultural. A grelha interpretativa partilhada por pessoas que viveram em circunstâncias similares  e que se exterioriza através de critérios de gosto pode ser encontrada nas mais diversas actividades.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Acerca do Juízo Estético

Lembram-se, concerteza, do filme A Mosca. Neste filme, acho particularmente interessante uma cena em que o cientista (Jeff Goldblum) se encontra frustrado com o facto da sua máquina de teletransporte não conseguir reconstruir um organismo de forma coerente. O problema estava no computador que não tinha a capacidade extrair um significado holista, um sentido, do amontoado de fórmulas que compõem a química de um organismo. Só depois de fazer amor é que o cientista tem um insight e diz uma frase espantosa : «O computador tem que sentir o gosto da carne».
Porque razão o computador não conseguia "sentir" a carne? O que haverá afinal de característico no juízo estético?
Na minha opinião, o juízo estético vai buscar um tipo particular de inteligência que é a intuição. Ora a intuição é uma adaptação cognitiva que visa dar conta de realidades complexas para as quais os aforismos racionalistas são limitados. O que eu quero dizer é que os mecanismos conscientes da razão não conseguem lidar com realidades com um carácter caótico, isto é, sistemas extremamente complexos. Como o processo de elaboração de um aforismo depende de um paradigma orientador e de um método mais ou menos rígido, quando a realidade sensorial “não encaixa” dentro de um esquema conceptual, a razão vê-se confrontada com o absurdo. Daí que as artes têm maneiras de lidar com o problema da contradição que escapam às chamadas “ciências exactas”. O paradoxo (termo muitas vezes utilizado pejorativamente para exprimir a impotência perante dois paradigmas contraditórios) e o oxímoro (a contradição utilizada com fins estilísticos) são recursos utilizados em áreas do conhecimento que não procuram a lógica linear do racionalismo. É de notar que mesmo o conceito de antítese (utilizado na fenomenologia hegeliana) aparece num contexto que procura um telos, procura ir em direcção a algo, ainda que o movimento seja dialéctico. O problema é que a razão consciente não consegue dar sentido a sistemas caóticos. É aqui que surge o juízo estético. O juízo estético não procura o aforismo, procura um “sabor”, um “gosto” cuja representação não pode ser operacionalizada pela construção de uma lógica linear. A representação do “infinitamente complexo” recorre a mecanismos de evocação como a metáfora. O “infinitamente complexo” não pode ser explicado, tem que ser evocado.