make money online Consumo e Outros Contextos de Poder

Domingo, Julho 04, 2010

Sedução, Publicidade e Demagogia

«Se o objectivo do jogo é vencer, então o batoteiro é o único verdadeiro jogador » - Jean Baudrillard

A sedução pode ser definida como um processo através do qual se incita deliberadamente uma pessoa em direcção a uma resposta comportamental pré-determinada. Há muitas áreas onde a indução dos comportamentos se faz sentir. No entanto, a palavra “sedução” parece empurrar-nos para um tipo muito específico de influência : a sedução sexual. A sexualidade utilizada como instrumento para “regular” os comportamentos dos outros é sem dúvida um aspecto importante nas sociedades ocidentais. Contudo, é necessário salientar que há muitas formas de sedução para além da manipulação erótica.
Uma questão relevante dentro desta temática tem a ver com a relação entre sedução e poder. Serão a mesma coisa, uma vez que o poder pode ser definido como a capacidade de alguém impor a sua vontade aos outros? Ambos existem sempre em situações relacionais. Isto é, tem-se poder em relação a alguém e a sedução é sempre dirigida a outra pessoa. Portanto, não se pode dizer que “o sujeito x tem poder” ou que “tem sedução”. O poder e a sedução existem sempre num quadro de relações sociais. Apesar deste aspecto em comum, o poder envolve um leque de estratégias de controlo mais vasto. A coerção é um exemplo de poder que não diz respeito à sedução. Na minha opinião, a sedução é um dos aspectos do poder. Não são a mesma coisa mas o segundo engloba o primeiro.
A sedução baseia-se nos conhecimentos que um dado indivíduo possa ter relativamente ao perfil psicológico dos outros e à mestria de determinados métodos de persuasão. De uma forma simplificada pode-se dizer que seduzir é fazer alguém sentir a necessidade de levar a cabo uma determinada acção.
A questão das necessidades dos seres humanos é extremamente vasta e complexa. Todos conhecemos as necessidades fisiológicas (que procuram repor um determinado equilíbrio no organismo), os princípios de evitação da dor e de procura do prazer, as necessidades sociais (ou gregárias) e as culturais (às quais somos conformados desde a infância). No entanto, todas estas forças motivacionais podem ser manipuladas (transformadas na consciência do sujeito individual) e existe a possibilidade de fazer emergir novas necessidades. Eu não pretendo neste artigo classificar umas de “reais” e outras de “artificiais”. Parece-me inútil tentar definir a “genuinidade” de uma força motivacional. O importante é tentar descrever a dinâmica das necessidades para perceber como o comportamento dos indivíduos pode ser influenciado.
Um dos aspectos mais importantes da sedução é a criação de estados liminares. Uma condição liminar é aquela que existe entre dimensões, não é uma coisa nem é outra. Não tem uma categoria específica. Estes estados provocam quase sempre o fascínio e estimulam a imaginação. O crepúsculo (entre o dia e a noite), os géneros indefinidos (travestis, transsexuais, hermafroditas…), as encruzilhadas entre caminhos, são alguns exemplos de liminaridade. Nalgumas culturas, estas “zonas intermédias” têm conotações com o mundo da magia e do sobrenatural. A forma como são percebidas pelos seres humanos escapa aos mecanismos de categorização do real. Daí que sejam extremamente susceptíveis de evocar emoções e conduzir à fantasia. É por isso que a liminaridade é tão importante quando falamos de sedução. Para a sedução acontecer o sujeito tem que deixar fugir a estabilidade do real. Tem que se encontrar perante uma situação que não consegue explicar.
Há quem veja a sedução como um jogo, com regras próprias, no qual sedutor e seduzido dialogam através de estratégias comuns. Nada poderia estar mais longe da verdade. A sedução baseia-se na transgressão de normas, na desestabilização da consciência do sujeito e na subversão da percepção do real. Trata-se de um jogo de poder no qual a regra é a batotice. Consiste em fazer com que o sujeito perca o controlo consciente da situação e seja levado pelas “fintas” do sedutor. Para que o leitor compreenda melhor a “natureza batoteira” desta área passo a descrever, como exemplo, um possível “modelo” de sedução:
· Colocar o sujeito perante um objecto apetecível, ou seja, perante um ser que tem o potencial de satisfazer as suas necessidades mais imediatas.
· Procurar desinibir o sujeito.
· Criar um ambiente propício a que o sujeito se envolva, colocando-o num contexto que lhe parece “familiar” (e seguro).
· Evocar emoções ou sentimentos agradáveis e elementares (alegria, vaidade, curiosidade...)
· Ter sempre a preocupação que o sujeito tenha dificuldade em identificar o que sente. Provocar uma separação entre o que o sujeito sente e a consciência (reconhecimento) das suas próprias emoções ou sentimentos.
· Contornar a capacidade de antecipação do sujeito. Todos nós conseguimos, até certo ponto, prever as acções dos nossos interlocutores. Essa capacidade permite-nos “controlar” as situações e os nossos estados de espírito. Daí que o sedutor tenha que surpreender, contornando as “defesas” mentais do sujeito.
· Tentar que o sujeito confunda o que sente com o que o sedutor pretende que ele sinta.
· Dar a iniciativa ao sujeito para ir ao encontro do objecto. Nunca “empurrar” o objecto em direcção ao sujeito.
· Fazer um jogo de aproximação-distanciamento entre o sujeito e o objecto. Não se deve deixar que o sujeito alcance na totalidade o objecto, uma vez que isso provocaria o fim da motivação. Não se deve afastar completamente o objecto, uma vez que isso provocaria a resignação do sujeito. Este jogo de aproximação-distanciamento vai fazer com que o desejo aumente.

Como é óbvio, não há “fórmulas” concretas de sedução. O acto de seduzir é sempre um exercício de criatividade adaptado às características individuais do sujeito.
A expressão “sedutor” é muitas vezes utilizada com uma conotação negativa. O sedutor (ou sedutora) é frequentemente associado a actos de vigarice fria e calculista, como se tratasse de um burlão que se aproveita dos sentimentos dos outros para atingir objectivos egoístas. De facto, o mundo está cheio de oportunistas, com uma incapacidade para a empatia, e que, instrumentalizando os outros, conseguem obter benefícios pessoais. No entanto, eu não classifico estes indivíduos como sedutores. Isto porque a sedução é um jogo de criatividade que precisa de uma motivação emocional, ou seja, o sedutor tem que ser estimulado para que a sua fantasia possa nascer. Na minha opinião, há três “ingredientes” fundamentais que tornam um sedutor competente: a criatividade, o conhecimento sobre a natureza humana e a paixão. O sedutor mais motivado para “encantar” é aquele que já foi encantado. Normalmente, os oportunistas frios e calculistas são maus sedutores. Conseguem alcançar os seus intentos seleccionando “alvos” vulneráveis e utilizam quase sempre os mesmos estratagemas. Há pouca criatividade. Há é sentido de oportunidade.
Até agora analisei apenas a manipulação dos comportamentos no contexto das relações interpessoais. Este é um tipo de influência que se procura exercer sobre um único indivíduo ou sobre um pequeno grupo. Tão (ou ainda mais) fascinante é o “controlo mental” dirigido às massas. A preocupação com o imaginário e com a opinião dos colectivos deu origem, ao longo do século XX, a indústrias poderosíssimas de publicidade (com o intuito de promover a venda de bens de consumo) e de propaganda (com objectivos políticos). Estas instituições são, no fundo, fábricas de cultura. Ou seja, são mecanismos que promovem a transformação das visões do mundo, dos comportamentos e dos “estilos-de-vida”. Para levar a cabo esta tarefa, uma agência de publicidade terá que elaborar estratégias para “fintar” o espírito crítico das pessoas que constituem o alvo da campanha. A publicidade vai buscar algum conhecimento relativo à psicologia das relações interpessoais mas tem, sobretudo que se socorrer dos meios de influência visual. Passo a descrever algumas estratégias da publicidade patentes em anúncios televisivos, outdoors, etc:
- A ambiguidade entre várias formas de prazer. Quando o bem de consumo tem como principal função dar prazer ao seu consumidor o publicitário procura reforçar esta noção acrescentando outras formas de prazer. Por exemplo, os anúncios de doces (gelados, bombons, etc) estão quase sempre carregados de conotações eróticas. O erotismo tem, necessariamente, que ser implícito uma vez que o que se pretende é aumentar a ideia de prazer em abstracto.
- As cores. Quando se trata de promover um objecto a cor é um assunto importante. Objectos dirigidos ao prazer efémero têm, normalmente, cores quentes (vermelho, amarelo e dourados). Quando se procura que um produto evoque a excelência do progresso científico os tons eleitos são os metálicos (prateados, cromados, etc). O azul e o verde são também muito utilizados pela indústria informática.
- Casar o objecto com uma identidade pessoal. O slogan Só Para Homens é um exemplo de como um after-shave pode ser transformado num símbolo de masculinidade (isto é, de identidade masculina). Uma campanha que eu achei particularmente interessante foi a da citroen envolvendo a modelo Cláudia Schiffer. Eu ouvi várias interpretações simplistas quanto à estratégia por detrás desta campanha. A mais vulgar que eu ouvi foi: “Eles querem que a gente pense que se comprar o citroen xara leva também a Cláudia”. Se a mensagem dos anúncios fosse assim tão directa não teria funcionado. Realmente, a campanha dirigia-se a um público maioritariamente masculino. No entanto, a estratégia era outra. Um dos anúncios terminava com o seguinte slogan: “Citroen Xara, instinto protector!”. Era nesta frase que poderíamos encontrar a verdadeira estratégia publicitária. Todo o enredo do spot procurava transmitir uma ideia de protecção e segurança para o ocupante do automóvel (a Cláudia). No nosso “inconsciente colectivo” a identidade masculina alicerça-se muito na função protectora em relação à mulher. Ao transmitir a ideia que o Citroen Xara é muito protector, a campanha conseguiu transformar um veículo mecânico num símbolo de masculinidade. A modelo Cláudia Schiffer foi bem escolhida, uma vez que cumpre a função de símbolo de feminilidade. Este tipo de estratégias funciona muito bem, uma vez que as pessoas estabelecem ligações (agregam-se) a objectos que têm a sua identidade. Um indivíduo sente-se “mais homem” se adquirir objectos conotados com a masculinidade.
- Os teasers. Um “teaser” é um anúncio com apenas parte da mensagem que se procura transmitir. É um método que visa provocar a curiosidade no sujeito. Pode funcionar, uma vez que capta a atenção e põe o indivíduo a pensar. No entanto, existe sempre o risco de desiludir quando a segunda parte da mensagem for exposta.
- O discurso oral. A publicidade foi buscar aos grandes oradores da história as estratégias para transmitir ideias através da voz. Seja via rádio ou através da voz-off de um anúncio televisivo, o método é quase sempre o mesmo: frases simples e perceptíveis por todos, em alto e bom som, repetidas sucessivas vezes. O tom de voz deve inspirar determinação (enérgico) mas deve ser em simultâneo descontraído e muito apelativo.
- Objectos que criam necessidades. Uma criança que compre uma barbie está necessariamente a comprar também um “conjunto de necessidades”. Mais tarde ou mais cedo, a barbie vai “precisar” de uma panóplia de adereços (roupas, o amigo Ken, etc). Quem compra uma consola de jogos, adquire a “necessidade” de periféricos (manípulos, memórias, câmaras, etc). Neste tipo de objectos, a publicidade procura “demonstrar” ao consumidor o poder que o produto oferece. A necessidade de adquirir objectos acessórios tem a ver com uma lógica de expansão do poder individual. Para a criança que tem uma barbie comprar o Castelo Mágico significa expandir o universo das brincadeiras, ou seja, ter mais poder de opção.
- A credibilidade de uma figura pública. Apresentar num anúncio alguém que é conhecido por todos e usar essa figura para “aconselhar” o espectador é criar uma “garantia” de honestidade («Este tipo não vai mentir porque toda gente o conhece»). Além disso, a figura pública induz um clima de familiaridade que aproxima o espectador do produto publicitado.

Na publicidade política (propaganda) estão, e sempre estiveram, grandes manipuladores. Adolph Hitler, com todos os defeitos que se lhe conhecem, foi um estratega extremamente eficaz no que toca à propaganda. Passo a descrever alguns aspectos desta “competência” hitleriana:
- A criação da bandeira nazi. Hitler foi buscar a suástica ao ocultismo alemão, colocou-a sobre um disco branco centrado numa bandeira vermelha. Criou um ícone extremamente forte, de reconhecimento imediato e singular. Utilizou-o invertendo a lógica do simbolismo. Um símbolo é sempre a representação de algo que já existe; a bandeira nazi é a representação de algo que está para vir.
- Como orador, gritava electrizando a multidão, transmitindo uma imagem de força e de certeza. A pose era firme, só a cabeça e os braços mexiam. O gesticular de Hitler foi treinado, procurando mimetizar os “passes mágicos” de um ilusionista. Tudo isto para criar uma aura sobrenatural, acrescida pelo seu olhar penetrante iluminado pelo azul intenso dos olhos.
- O discurso simples e furioso ia ao encontro dos sentimentos das massas. Descrições maniqueístas dividiam a Alemanha entre os absolutamente bons (arianos) e os absolutamente maus (judeus). Citando o próprio Hitler: «não se pode apontar vários inimigos ao povo senão o ódio dispersa-se; só pode haver um único inimigo para que a mobilização seja absoluta.».

Já o “nosso” Salazar não era tão dotado para a manipulação popular. No entanto, a capacidade que lhe faltava para gerir o espírito das multidões era compensada por uma profunda destreza no “um-para-um”. Tinha:
- Uma intuição quase sobrenatural para detectar as ambições dos que o rodeavam.
- Conseguia esconder as suas intenções e fazer com que as pessoas o conduzissem ao poder.
- Fingia-se de fraco para que os adversários tivessem confiança suficiente para mostrar a cara.
- Colocava-se quase sempre numa “posição neutral” entre as forças dominantes, de maneira a poder geri-las.

Os políticos das chamadas “democracias ocidentais” são mais completos, na minha opinião, no que toca a estratégias de manipulação:

- Utilizam ícones simples e apelativos nas campanhas.
-Têm uma aparência que procura evocar “estabilidade”, “bom senso” e “moderação”. Predominam os fatos azuis-escuros e cortes de cabelo discretos. O professor Cavaco Silva surgiu no segundo mandato enquanto primeiro-ministro com umas “entradas brancas”, que transmitiam uma certa “maturidade”.
- No discurso evitam formular opiniões que os comprometam.
- Utilizam frequentemente expressões como “democracia”, “liberdade”, “desenvolvimento”, “progresso” e “futuro”. Estas expressões foram sempre de difícil definição e, graças ao uso indiscriminado, foram perdendo o significado concreto. Actualmente, são palavras que não querem dizer nada mas que evocam sentimentos positivos nas massas.
- São mutantes eternos e constantes. A identidade política de cada um é inconsistente, fluida, de forma a permitir a sobrevivência do político em qualquer contexto. São muito dinâmicos os políticos profissionais das “democracias parlamentares”.
- Nunca negam o que é óbvio. Afirmam-no de maneira a ganhar credibilidade.
- Procuram transmitir uma imagem de descontracção e bom humor. Mostram que têm muitos amigos e que o povo está com eles. Isto dá-lhes uma imagem de poder.
- Gostam de tornar pública uma imagem de vida familiar estável. Desta forma, conseguem uma empatia com o público.
Eu não considero que os políticos e os publicitários na sua maioria sejam verdadeiros sedutores. Como eu procurei explicar, a sedução pressupõe um envolvimento emocional entre sedutor e seduzido. A manipulação presente na publicidade e na demagogia não tem a emoção e a fantasia como principais fontes de motivação. Não excluo a possibilidade de um político se apaixonar pelo povo e conseguir seduzí-lo através da expressão do seu deslumbramento. No entanto, a maioria serve-se de técnicas por demais conhecidas. A capacidade de surpreender é quase nula na política e na publicidade, e isto é um sintoma do distanciamento entre quem manipula e o objecto da manipulação.
A sedução é algo maravilhoso. É a arte de fazer com que os outros sintam o que nós sentimos.

Segunda-feira, Junho 07, 2010

Consumo e Suas Conotações

Uma forma simples de definir o consumo pode ser esta: a utilização de um recurso que não foi produzido por nós. Esta definição reflecte claramente a separação de duas esferas – a da produção de um determinado artefacto e a da sua apropriação.
O consumo enquanto conceito é uma invenção da Economia. Pelo menos nos últimos cem anos, esta ciência tem invadido a nossa forma de conceber o mundo. Expressões correntes como “produção em massa”, “oferta e procura”, “gestão de recursos” são alguns exemplos de como a cultura da Economia penetrou no quotidiano das sociedades ‘ocidentais’. A nossa forma de pensar foi, ao longo do tempo, adquirindo os contornos da ciência económica. De tal forma que esta gramática constituiu-se numa visão do mundo.
Um dos conceitos mais fortes com que a Economia povoou o nosso pensamento foi o de mercado ( livre). Este conceito constitui-se num modelo que é utilizado para pensar a realidade, definir estratégias de acção e gerar ideologias. Trata-se de um modelo que reside em certas assunções. Talvez a mais básica seja a de que o mundo é constituído por indivíduos livres. A crença que esses indivíduos detêm uma espécie de livre arbítrio significa que eles são a única fonte e os juízes dos seus desejos, e que esses indivíduos não estão sujeitos a constrangimentos para além daqueles que aceitam voluntariamente. Não há, consequentemente, nenhuma estrutura imperativa além do indivíduo, nenhuma grelha moral operativa que seja definitiva. Associado a este individualismo está a assunção de que as razões que levam as pessoas a desejar isto ou aquilo são irrelevantes. Tudo o que interessa é que elas desejam, com o corolário que deviam satisfazer esse desejo caso possam. A outra assunção chave é que as pessoas são pragmaticamente racionais. Essencialmente isto quer dizer que elas querem mais por menos.
O modelo descreve um mundo que consiste apenas em compradores e vendedores. Estes podem ser indivíduos ou organizações, e um actor que é comprador a dada altura pode ser vendedor noutra. Compradores e vendedores: ambos querem mais por menos, de tal forma que o conflito entre eles é inevitável. O comprador quer despender o mínimo de capital por um artigo e o vendedor quer cobrar o máximo de dinheiro por ele.
Uma das razões para que o modelo tenha a força e a capacidade de atracção que tem é o facto de estar enraizado no que está construído como a natureza humana fundamental. Seria, com efeito, o que as pessoas fariam espontaneamente caso fossem deixadas ao acaso, se a sua propensão para comercializar, trocar e cambiar não fosse constrangida. Estando alicerçado sobre uma concepção de natureza humana fundamental, o mercado pode ser utilizado para exprimir uma variedade de valores e pressupostos, muitos dos quais ajudam a explicar a atracção populista da ideia de Mercado Livre. Por exemplo, diz-se que o Mercado é uma protecção contra um Estado intruso e que, portanto, é o garante da liberdade pessoal. Diz-se também que permite que os compradores disponham de maior utilidade e satisfação do que teriam doutra forma. É uma fonte de eficiência, assegurando uma alocação de recursos mais racional. É o mais certo motor do crescimento económico e da prosperidade pessoal. Por detrás destas ideias está a ligação entre o Mercado e o ocidente liberal capitalista, o local com maior liberdade e riqueza que existe.
Importa salientar que conceitos como consumo, consumidor, mercado, aquisição, remetem para uma lógica economicista. Contra esta corrente, as ciências sociais têm procurado dar explicações para uma nova arena de relações sociais, onde se tecem identidades e sistemas de valor que contrariam a ideia de absoluta liberdade e racionalidade do consumidor da Economia. O que está em jogo é muito mais do que a lei da oferta e da procura. São os significados e os valores sociais – muitas vezes contraditórios – imbuídos na forma como nos relacionamos com os objectos que não produzimos. Quero dizer que o consumo, ao contrário de outros sistemas de intercâmbio de objectos, se define na sua natureza pela existência de um separação entre produtores e utilizadores. Uma pessoa consome porque apropria um objecto que não produziu (Carrier:1997).
Na nossa sociedade subsistem vários mitos sobre consumo. Um deles opõe a genuinidade das relações humanas ao materialismo dos bens de consumo. Este mito compreende as seguintes asserções: o consumo é baseado no materialismo como um desejo não razoável de bens; o consumo opõe-se à sociabilidade já que é baseado num interesse em objectos que substitui o interesse prévio pelas pessoas. Estamos cada vez mais dominados pelo mundo das compras e, como tal, diminuídos na nossa humanidade. Interessa aqui salientar que, tanto os grupos étnicos como as mercadorias devem ser compreendidas como objectificações utilizadas para criar e explorar projectos de valor. Como tal, relacionam-se com aspectos ou imagens ideais da pessoa humana. O que deve ser rejeitado é o argumento de alguns autores que debatem o pós-modernismo o qual aponta para a existência de um discurso sobre a autenticidade das pessoas, sendo este reduzido pelo campo não-autêntico das mercadorias. (Miller:1997). Os objectos, tal como as pessoas, têm histórias de vida. Nascem para uma comunidade e ao longo do tempo e vão adquirindo identidades que se transformam. Quando adquirem o estatuto de mercadorias o carácter dinâmico do que representam continua a subsistir. As mercadorias são geralmente vistas como representações materiais típicas do modo de produção capitalista. Na verdade, os objectos de consumo têm vidas sociais. A mercadoria (como conceito) é um estado no qual as coisas podem entrar e sair. Os objectos “candidatam-se” ao estado de mercadoria e isto refere-se aos padrões e critérios (simbólicos, classificativos e morais) que definem a capacidade das coisas serem trocadas em qualquer contexto social e histórico particular. As mercadorias representam formas sociais e distribuições de conhecimento bastante complexas. Em primeiro lugar, tal conhecimento pode ser visto de duas perspectivas: o conhecimento técnico, social e estético que existe na produção do objecto; e, por outro lado, o conhecimento que reside na apropriação da mercadoria através do consumo. O conhecimento de produção que é registado num objecto durante a sua realização é bastante diferente do conhecimento de consumo que dele é traduzido. As duas leituras irão divergir proporcionadamente à medida que as distâncias sociais, espaciais e temporais entre produtores e consumidores aumentam (Appadurai:1986).
Nas primeiras fases do capitalismo, o trabalho (assalariado) formava o corpo central do senso de identidade para a maioria das pessoas. Actualmente, são as mercadorias e os padrões domésticos de consumo que jogam um papel importante na construção social e cultural. É cada vez mais no conjunto das mercadorias trazidas à vida pelas práticas de consumo que objectivações morais, cosmológicas e ideológicas são construídas para criar as imagens pelas quais nós compreendemos quem somos, quem fomos e quem seremos ou deveremos ser no futuro. Uma identidade construída através do consumo oferece muito mais poder e é consideravelmente mais controlável do que uma identidade dependente da sua colocação dentro de sistemas de produção.
Temos que deixar de pensar o consumo como uma manifestação de escolhas individuais. A decisão básica que um indivíduo tem que fazer refere-se ao tipo de sociedade em que viver. As pessoas podem não saber muito bem o que querem quando vão às compras, mas certamente têm consciência do que não querem. Para compreender as práticas de consumo temos que delinear as aversões estandardizadas – que são muito mais constantes e reveladoras que os desejos. Os artefactos são seleccionados para demonstrar a preferência. O penteado, os sapatos, a cosmética – assim como outras mercadorias - , assinalam afiliação cultural. (Nava:1997:73; Miller:1995; Bocock:1993; Douglas:1997).
Referências:
APADURAI, Arjun, 1986, The Social Life of Things, Cambridge University Press , Cambridge.
BOCOCK , Robert , 1993 , Consumption , Routledge , London & N. Y..
CARRIER, James, 1997 , Meanings of the Market , Berg , Oxford.
DOUGLAS, Mary, 1997, “In Defence of Shopping” In The Shopping Experience, Sage, London.
MILLER, Daniel, 1995, “ Consumption as the Vanguard of History” In Acknowledging Consumption , Routledge , London & N. Y..
MILLER, Daniel, 1997, Capitalism – An Ethnographic Aproach, Berg, Oxford , N. Y..
NAVA, Mica, 1997, “Modernity’s Disavowal : Women , the City and the Department Store” In The Shopping experience , Sage , London , T. O. , N. D..

Factores que Orientam a Selecção de um Bem de Consumo


- A construção das identidades pessoais através da escolha do objecto. O produto A é conotado com um grupo humano especifico (α) com uma identidade reconhecida. Optar por A é uma afirmação de pertença a α.
- A estética do objecto. Este factor divide-se em duas partes :
a) os aspectos formais e cromáticos (simetrias e cores), os quais dependem da estruturação visual da sociedade em causa.
b) A relação entre a aparência do objecto e os “modelos” visuais existentes (estilos, “modas”, etc).
- O “tipo” de objecto. Escolher um martelo é diferente de escolher um chocolate. Cada objecto existe socialmente através da noção que as pessoas têm dele. A noção é o objecto na sua forma social – a função que oferece, o contexto social no qual deve ser utilizado, o valor simbólico, etc.
- O custo monetário do objecto. “Custo”, “poupança” e “lucro” não são simples operações matemáticas. São noções culturais específicas dos grupos modernos. “Poupar” não é simplesmente gastar menos dinheiro. É uma noção que pode ser manipulada levando, muitas vezes, o consumidor a despender mais recursos para obter o objecto.
- O valor (importância) do objecto. Noções como “raridade”, “genuinidade” e “qualidade” podem aumentar ou diminuir a importância que um determinado grupo humano confere a um objecto.
- A ideia de necessidade. Porque é que um objecto é considerado necessário? As necessidades variam de grupo para grupo e enquadram-se nas práticas e valores específicos. Uma empresa pode “inventar” uma necessidade através da publicidade, mantendo desta forma uma relação constante do grupo humano com o produto.
- As marcas. Uma empresa procura, normalmente, associar à sua marca imagens e valores que aumentem a importância do produto. A marca, desta forma, transforma-se num símbolo e num elemento de evocação de aspectos como qualidade, genuinidade, poupança, etc. Frequentemente, as marcas procuram evocar formas de prazer e realização pessoal, mantendo uma relação constante com a manipulação do desejo.
- As rotinas dos consumidores (hábitos de consumo).
- O poder que o objecto oferece (liberdade, capacidade de usar a imaginação…). É que, tirando aquelas vezes em que compramos por rotina, nós procuramos o poder e o prazer (os dois principais princípios da motivação). Por vezes, o objecto actua como elemento de distinção, ou seja, faz sobressair (eleva) o proprietário em relação a outro grupo menos valorizado.

Domingo, Maio 09, 2010

Para quem é autodidacta

Se o estimado visitante é uma das muitas pessoas que procura cultivar o espírito por iniciativa própria, ou seja sem tutores nem percursos escolares ou académicos, este artigo é para si. A maioria dos autodidactas exerce a sua actividade de aprendizagem adquirindo livros sortidos e, eventualmente, pedindo informações às pessoas com quem se relaciona. Esta actividade é extremamente estimulante e confere liberdade a quem a pratica. Demasiada liberdade, como verá.
Ser responsável pela sua própria formação acarreta vários riscos. Pode ficar com lacunas importantes, adquirir conhecimento desactualizado, formular conceitos fantasistas, etc. O pior que lhe poderá acontecer é ter a sensação que possui um vasto conhecimento porque leu muitos livros ou porque tem a cabeça cheia de ideias. A vaidade intelectual, o chamado pedantismo, é dos piores inimigos de quem quer aprender.
A primeira coisa que deve ter em mente é a distinção entre aprender e armazenar conhecimentos. Se você quer ser um erudito, um armazém de “factos”, então este artigo não é para si. Há uma metodologia específica para adquirir Cultura Geral, muito útil a quem, por exemplo, deseja ganhar dinheiro em concursos televisivos.
Aprender é, acima de tudo, a transformação de um prisma. Quem aprende modifica a sua maneira de ver o mundo. Adquire novos esquemas interpretativos que lhe permitem decifrar o real de forma mais precisa. Por isso, aprender é tornar-se mais competente no processo de compreensão. Para aprender é necessário ler livros ou ir à escola? Claro que não. Desde que nascemos, tomamos contacto com o que nos rodeia e vamos adquirindo novas formas de classificar a realidade, interpretando-a.
Quando a aprendizagem foca o conjunto de conhecimentos instituídos disciplinarmente pelas Ciências e Humanidades, a forma como se transmite a informação tem metodologias próprias e obedece a critérios diferentes do senso comum. Não convém que seja uma aventura solitária, senão o explorador arrisca-se a ser engolido pela própria Natureza que deseja desbravar.
Sejamos optimistas e acreditemos que há navegadores solitários que conseguem chegar em segurança ao destino. Para ser um autodidacta bem-sucedido precisa de ter em conta vários aspectos.
Quando alguém entra numa livraria, a sua atenção recai sobre títulos e temas para os quais já está sensibilizado. No caso de um leigo que procura bibliografia sobre uma determinada matéria, os seus sentidos serão estimulados pelos assuntos que consegue compreender e, sobretudo, pelos conteúdos que concordam com a aprendizagem do senso comum, operada pelos meios de comunicação social, sociabilidade, etc. Temas que desconhece por completo não lhe abrem o apetite. Esta situação é uma das principais responsáveis pelas lacunas que a maioria dos autodidactas demonstra. O autodidacta só lê o que lhe apetece e não o que lhe seria mais útil.
Em segundo lugar temos o problema do método. A ordem de leitura não deve ser arbitrária e muito menos aleatória. Se você se interessa por um determinado autor, nunca pegue nas suas obras indiscriminadamente. Se o fizer, corre o risco de não compreender a evolução do pensamento desse autor e de não o conseguir enquadrar no contexto a que ele pertence. O ideal seria pedir ajuda a alguém que tem formação na área, no sentido de lhe indicar quais as obras que você deve ler e qual a ordem de leitura. Se não puder obter a tutória de um amigo ou conhecido, pegue numa enciclopédia e procure as entradas que dizem respeito ao tema. Regra geral, as enciclopédias oferecem uma visão panorâmica sobre os assuntos, que lhe permitirão inicialmente encarar a temática de forma abrangente e inserida num contexto, para que posteriormente possa ir estreitando as áreas de interesse. Portanto, um artigo numa enciclopédia pode ser uma introdução valiosa ao tema que pretende estudar e até um guia, uma vez que fornecem informações adicionais, como indicações para outras entradas ou sugestões de leitura.
O importante é começar com uma boa introdução, uma leitura que dê uma perspectiva geral do assunto e que o sensibilize para os diversos aspectos que constituem toda a complexidade da área em estudo. Um bom edifício dispõe sempre de uma antecâmara suficientemente ampla que permita aos recém-chegados visualizar a estrutura interna do prédio e, com a devida sinalização, evita que os visitantes percorram caminhos errados.
Outro aspecto a ter em conta é a credibilidade das obras. Não é por estar numa livraria frequentada pelas elites que um livro adquire qualidade. Comece por folhear a obra e veja se está bem organizada. O índice consegue ser funcional, ou seja, ajudar o leitor a orientar-se no texto? O autor está bem referenciado? Consegue-se perceber quem é, o que fez para chegar àquela obra, que trabalho desenvolveu dentro da área disciplinar? As consultas citadas pelo autor estão bem referenciadas? Há anotações? Quem tem prática a escolher livros já conhece as características que dão credibilidade a uma edição. Todas se resumem a uma qualidade: rigor. Boas edições estão bem organizadas e pautam-se pelo rigor aos mais ínfimo pormenor. Fuja de livros com títulos sensacionalistas como «A História misteriosa de…» ou «Grande livro do…», que procuram chamar a atenção dos mais ignorantes.
Quando se trata de livros científicos, o rigor é ainda mais necessário. Não corra riscos. Procure alguém com formação científica na área e peça-lhe ajuda. A data da edição também é importante quando estamos a lidar com um domínio científico que está em acelerada actualização e cujos conhecimentos se tornam desactualizados rapidamente. Hoje em dia, quase todos os campos científicos estão em constante mutação e, por isso, o conhecimento que era aceite há 3 anos deixou de o ser ontem à tarde.
Nunca compre livros sobre assuntos muito diversos de uma assentada. Um livro não é comparável a um fruto. Por isso, adquirir bibliografia não é o mesmo que preparar uma salada de fruta. Concentrar a sua atenção em áreas muito distintas pode ser prejudicial até para a sua saúde mental. Não estou a brincar. A nossa mente é um engenho de produzir analogias . Se você ler agora um livro sobre a organização social das abelhas e logo a seguir outro sobre a vida de Dostoievski, a sua mente irá necessariamente relacionar informação proveniente das duas obras. O resultado é o que acontece a muitos autodidactas: “descobrem” que têm teorias absolutamente revolucionárias, capazes de mudar o mundo. Outro dos “sintomas” característicos manifesta-se pelo carácter fragmentário do conhecimento. É vê-los nos cafés a debaterem com os amigos, saltitando de assunto em assunto, com argumentos de 15 segundos. Tornam-se incapazes de desenvolver um argumento, mas muito populares em tertúlias ou conversas de café. O problema da “Cultura Geral” é que se manifesta sabendo um pouco de tudo. Só que na maioria das vezes, o pouco é mesmo muito pouco. Eu chamo a isto “o intelecto fragmentado do autodidacta”.
Não queremos que a nossa mente seja uma manta de retalhos, mas sim um instrumento cada vez mais aperfeiçoado e capaz de interpretar a realidade.
Ponha à prova os seus conhecimentos. Desenvolva um argumento e coloque-o perante uma comunidade que se dedica a estudar o mesmo assunto. Os outros membros indicar-lhe-ão os erros de estudo que eventualmente terá cometido e colocá-lo-ão perante argumentos que contradizem o seu. O valor de uma teoria mede-se pela capacidade de sobrevivência perante a crítica. Estudar em comunidade também lhe permitirá beneficiar da ajuda de terceiros. As comunidades de conhecimento servem para que os membros se ajudem mutuamente.
Nunca tema as críticas. São elas que o ajudarão a evoluir. Não procure elogios. O ego e o conhecimento são inimigos radicais. A vaidade levá-lo-à à ilusão do saber, à cegueira do diletante.
O estimado visitante não quer ser, de certeza, como uma personagem de Sartre da obra A Náusea. O Autodidacta de Sartre pretendia ler os livros todos que havia numa biblioteca pública, por ordem alfabética...

Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

Como Proteger o Seu Computador ou a Sua Página na Web (para iniciantes)

Comece por imaginar que a sua propriedade (PC ou Web Site) constituem uma cidade que pode estar sob ameaça de ladrões ou invasores. Eu costumo explicar este processo recorrendo à Guerra de Tróia. O seu papel é o de monarca troiano, a quem compete zelar pela segurança da cidade. Os gregos seriam os oponentes, aqueles que querem tomar conta do que não lhes pertence.
A primeira barreira é a muralha que, em princípio é inexpugnável. São os portões (bem guardados) que controlam as saídas e entradas. No caso de um computador, à muralha dá-se o nome de firewall. A firewall é um programa que, uma vez instalado no seu computador vigia o tráfego entre o seu PC e o mundo exterior. Há comunicações autorizadas e outras que são simplesmente barradas. Portanto, esta é a primeira linha defensiva e que merece toda a sua atenção. Há firewalls gratuitas e outras com valor comercial. Eu cá prefiro a Zone Alarm porque a minha experiência me diz que funciona lindamente e não é nada complicada de gerir. E ainda por cima é gratuita. Mas vale a pena experimentar outras. As mais avançadas vigiam todos os programas instalados no computador e, de cada vez que um tenta entrar em contacto com o exterior, perguntam ao utilizador se autoriza ou não que a comunicação seja estabelecida. Ainda há algumas, mais completas, que protegem a integridade dos seus programas. Sempre que um dos seus programas está em vias de sofrer uma transformação, a firewall interrompe o processo e pergunta ao utilizador se autoriza que o programa seja modificado.
Como não há muralhas perfeitas (e a Guerra de Tróia demonstrou isso mesmo, uma vez que foi ludibriada pelo célebre cavalo de madeira construído por Ulisses), tem que haver um policiamento no interior da cidade (do PC neste caso). O papel do antivírus é precisamente policiar o seu computador à procura de programas invasores que tenha conseguido ultrapassar a muralha defensiva. A firewall e o antivírus complementam-se na tarefa de manter o seu sistema seguro. O que não falta no mercado são antivírus, que variam na marca e no preço. Para se entender a qualidade de um antivírus, parta dos seguintes critérios: precisão na detecção de programas indesejáveis. Alguns detectam mal (ou não detectam) a presença de vírus e outros produzem falsos alarmes a torto e a direito, o que deixa o utilizador quase paranóico, com a sensação que estão a aparecer ameaças de toda a parte. O meu preferido é o Kaspersky. É fácil de configurar e tem uma precisão espantosa. Detecta todas as ameaças e não emite alarmes falsos.
Há programas especializados em detectar ameaças muito específicas, para além dos vírus. Hoje em dia, a detecção de todo o tipo de programas maliciosos já vem incluída no antivírus.
Mantenha sempre os seus programas actualizados, especialmente o antivírus e a firewall. Ainda está para nascer um programa sem falhas e são precisamente esses pequenos “defeitos” que os hackers exploram para invadir seu computador. A maioria das empresas de software disponibiliza frequentemente actualizações que visam corrigir pequenos erros que podem ser explorados por hackers.
Tenha cuidado com as páginas que visita na Web. Os que têm pouca credibilidade, lançam muitas vezes programas maliciosos para o computador do visitante. Os sites pornográficos costumam ser os mais inseguros.
As recomendações que delineei até agora são suficientes para o comum utilizador, aquele que não tem no computador documentos com valor económico ou informações que carecem de secretismo.
A maioria dos hackers são adolescentes que dominam técnicas básicas de invasão. Só conseguem invadir sistemas desprotegidos com utilizadores inexperientes. Perante uma boa firewall e um bom antivírus eles são completamente impotentes,
Os outros hackers, que têm conhecimentos avançados de informática e que, muitas vezes trabalham em equipa, não vão despender o seu precioso tempo a invadir o computador do vizinho. Querem é obter informações que os ajudem a ganhar dinheiro.
Portanto, o invasor tem quase sempre a dimensão do sistema que pretende atacar. Os miúdos querem é atacar sistemas e dar cabo de páginas web para depois se andarem a gabar aos amigos, convencidos que são uns autênticos génios da tecnologia. Os outros atacam empresas, corporações, sistemas governamentais e regem-se pela lei do silêncio.
Assim sendo, ao utilizador comum resta-lhe seguir as recomendações já descritas, para fazer a sua vida de cibernauta em paz e sossego.
Certifique-se também que a página do email onde insere o nome de utilizador e a palavra-passe é mesmo legítima, porque pode ser deparar com uma página igualzinha mas que foi criada pelo hacker para obter os seus dados confidenciais.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Consumption, James Carrier

Consumption is the meaningful use people make of the objects that are associated with them. The use can be mental or material; the objects can be things, ideas or relationships; the association can range from ownership to contemplation. This definition is broad and vague because anthropologists have been less concerned with defining their approach to consumption than with rejecting two previous approaches, those of conventional economics and Marxian *political economy. Researchers criticize these approaches for ignoring the social and cultural processes that underlie needs, generate demand and are satisfied in consumption (Douglas and lsherwood 1978; Sahlins 1976). While anthropologists recognize that some needs have a material basis, they stress the fact that need and demand reflect the ways objects facilitate social relationships and define social identities (e.g. Douglas and lsherwood 1978: ch. 5).
Scholars have long reflected on the meaningful use of objects. tMax Weber and tThorstein Veblen are two examples from around the beginning of the twentieth century. Despite this history, the systematic social study of consumption is relatively recent, being overshadowed by the study of social organization and production. Social science encyclopedias of the mid-1980s could still discuss consumption solely in economic terms.
One key concern of students of consumption is the way that objects carry significant social meanings. Just about ali objects have always carried such meanings to a degree. However, many argue that these meanings became especially pronounced in the West around the time ofthe rise of *capitalism and mass production; so much so that the West became a consume r society. This period saw a change in the way that Westerners thought about objects, as the symbolic gratifications of consumption loomed larger in people's minds (Campbell 1987). This change was facilitated and exploited by commercial firms, themselves growing larger and more aggressive (McKendrick, Brewer and Plumb 1982). Prominent among these were retail merchants, who were beginning to place their wares in novel and exotic displays in order to generate sales. This was especially true of department stores, the retail merchants who have attracted the greatest scholarly attention (Williams 1982).
For individuais, the first step in consumption is appropriation, establishing a mental association with the objects to be consumed. ln capitalist societies this means that *individuals transform objects from being impersonal commodities into things with distinctive meanings for the consumers and distinct places in the consumers' social lives (Carrier 1990; Miller 1987). Once appropriated, people can use the objects to define their place in different social units. For example, the clothes one wears can be important for defining one's gender, social rank, ethnic identity and a host of other social attributes. Less obviously, when and how one eats can be important for defining social cycles of time, whether time of day, season of the year or ritual cycles (Douglas and lsherwood 1978). The cumulative effect of these individual acts of definition is a common structure of consumption at the societal leveI. This structure of consumption in turn reflects and recreates the identities of social groups that consume in distinctive ways, as well as the differences between those groups (Bourdieu 1984).
Students of Western societies tend to focus on the way that consumption creates the distinction between different entities like *classes or *ethnic groups, probably because mass consumption is so established in the West. On the othêr hand, mass consumption in the Third World is relatively new, and research there tends to focus on the way that consumption creates novel social identities and entities. Many assert that the spread of Western consumables into Third World countries does not, as some had argued and feared, lead to homo-geneous Westernization. Instead, it leads to the creation of national hybrids (Hannerz 1987; Foster 1991). These hybrids consist of interpretations and adaptations of Western products developed and shared by indigenous people themselves. Such hybrids can generate common national consumption communities that displace pre-existing sub-national or colonial patterns, and so are important in creating the nation itself as a social and cultural entity (Wilk 1995). Equally, those national patterns can become self-sustaining. This can happen when fringe groups within the country adopt national consumption patterns in order to assert their membership in the emerging nation (Hirsch 1990), a process which increases the impartance of those national consumption patterns.
As the study of consumption matures it will need to address two issues. One is the denotation of 'consumption' itself, which seems at times to mean little more than 'not production'. This broad, vague, implicit definition is fertile, but is unlikely to help scholars develop a coherent view of the subject. The othei:- issue is more complex. At present researchers tend to investigate the ways that people impose meaning on the objects in their lives. However, many such objects come with complex structures of meaning already in them, such as song and television programmes,' or already attached to them through advertising and global cultural imagery, such as soft drinks and sports goods. If they are to develop a rounded account of consumption, scholars will need to address ways that these pre-existing meanings affect those ~ho consume the objects that carry them. JAMES G. CARRIER
In Encyclopedia of Social and Cultural Anthropology, Alan Barnard & Jonathan Spencer (Eds), Routledge

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Crítica à sociedade de consumo (imagens)


Estes cartazes alertam para o perigo do consumo e para excessiva influência que tem na nossa sociedade. Uns acusam o consumo de estar a destruir as relações sociais verdadeiras, substituindo-as por algo que é artificial, feito em série.Outros focam a destruição do meio ambiente.

Domingo, Outubro 04, 2009

Uma Introdução ao Hacking

Este artigo não pretende fomentar o crime informático, mas sim dar a conhecer uma realidade importante nos nossos dias. A palavra ‘hacking’ é aqui utilizada como sinónimo de um processo utilizado por alguém que procura invadir um sistema informático. Para trás ficam as outras definições, favorecidas pela riqueza da palavra, como ‘criativo’, ‘programador’ ou ‘especialista em segurança’.
É óbvio que, quanto mais amplos forem os conhecimentos de informática, maiores são as opções do hacker. No entanto, é possível dar os primeiros passos nesta arte negra sem saber programar, por exemplo. As técnicas estão facilitadas hoje em dia graças à existência de programas que fazem quase tudo e que podem ser utilizadas por qualquer pessoa, incluindo o utilizador que não tem conhecimentos profundos de Informática. Este artigo procura dar a conhecer tais programas, em que consistem e como se utilizam para invadir uma rede.
O primeiro passo de qualquer hacker consiste em recolher informações sobre o sistema que pretende conquistar. Inicia, portanto, o processo recolhendo dados técnicos ou de outra natureza que lhe permitirão descobrir uma forma de penetrar na “fortaleza”. Repare, caro leitor, que para descobrir uma palavra-passe, por vezes, basta iludir a pessoa que a detém levando-a a revelar-nos o segredo. Para isto nem é preciso ligar o computador. Basta entrar em contacto verbal com a vítima e ter uma “boa lábia”, a capacidade de criar uma conversação nos nossos moldes. Em português chama-se a esta técnica “tirar nabos da púcara”, mas os hackers preferem um nome mais sofisticado: engenharia social. Acredite, estimado leitor, que muitas invasões são praticadas por indivíduos sem grande perícia técnica, mas peritos na arte de “bem conversar”.
Deixemos agora o doce linguajar e rumemos aos tais programas de que lhe falei. A primeira classe de programas que deve conhecer é a dos scanners.
Um scanner é, por definição, um dispositivo que “sonda” outros computadores, redes ou outro tipo de hardware e que permite recolher informações. Há dois tipos de scanner: os que sondam redes inteiras e que, no final do processo lhe oferecem um relatório com as características da rede e das máquinas por ela interligadas (scanners de rede); e os scanners que pesquisam vulnerabilidades num determinado hospedeiro (um computador, por exemplo). Estes últimos, denominados scanners de vulnerabilidades, procuram no computador da vítima informações que possam ser exploradas pelo atacante para levar avante os seus intentos. Há muita variedade neste campo de software. Eu sugiro apenas estes:
Nmap – para utilizadores de Linux
GFI LANguard – para utilizadores de Windows


Imagem: GFI Languard

Ao utilizar estes programas não se está a cometer nenhum crime. É como estar na rua, diante de uma casa, observando tudo o que se passa. Ninguém vai preso por analisar, a partir do exterior, uma habitação, ainda que preste especial atenção a janelas e portas abertas, fechaduras, etc. No entanto, caro leitor, recomendo que não use os scanners para investigar organizações governamentais ou de empresas. Têm sempre equipas de segurança e basta estar a “olhar” para lá para que se torne suspeito. Se fizer um scanning à NASA, não se admire de, passado algum tempo, ter uns agentes a bater-lhe à porta.
Após ter recolhido informações sobre o sistema que pretende invadir, precisará de uma outra classe de programas para “arrombar a porta”: os exploits. Qualquer software instalado num computador tem a capacidade de…errar! A sua vítima tem no PC programas que terão comportamentos imprevistos se receberem instruções para as quais não estão preparados. Um exploit é um programa que executa instruções no computador da vítima, que geram erros num determinado software que lá está instalado, e que podem ser utilizados a favor do atacante. Há exploits para todos os gostos. Os hackers, espalhados pelo mundo inteiro, já se deram ao trabalho de encontrar vulnerabilidades em todo o tipo de software e de criar exploits que exploram os pontos fracos dos programas.
O sítio milw0rm (http://www.milw0rm.com/) é um verdadeiro armazém de exploits que qualquer pessoa pode descarregar para depois utilizar contra outro computador.


Imagem: exploit em execução

Há outra classe de programas, a que eu chamo tudo-em-um, que fazem o scanning da máquina-alvo e que contêm também exploits para invadir. Ou seja, recolhem informações e depois atacam, “automatizando” o processo de assalto. Recomendo dois:
- O Metasploit (gratuito) http://metasploit.com/
- O Core Impact (caro e não está acessível a qualquer pessoa) http://www.coresecurity.com/content/core-impact-overview

A partir do momento que o atacante entrou no computador da vítima, tem duas opções: faz o que tem a fazer no momento ou então tem que arranjar uma maneira de poder voltar lá mais tarde sem ter o trabalho inicial. Para poder voltar ao “local do crime” as vezes que forem necessárias, recomenda-se a utilização de outra classe de programas: os Cavalos de Tróia. Um Cavalo de Tróia é sempre constituído por dois programas. O primeiro (denominado servidor) é instalado no PC da vítima; o outro actua no computador do hacker (chamado cliente). Os dois programas comunicam um com o outro e permitem que o invasor tenha o controlo completo da máquina que invadiu. No seu computador, o hacker abre a “sua parte” do Cavalo de Tróia (cliente) e fica diante de si com um painel de opções. Dentro das muitas (inúmeras opções) do painel contam-se: transferir ficheiros de um PC para o outro, tomar conta do rato, abrir as gavetas de CD (os hackers gostam destas brincadeiras), gravar tudo o que se passa (incluindo imagens de webcam) ou simplesmente apagar todo o conteúdo guardado no computador (formatar os discos).


Imagem: Cliente do Cavalo de Tróia NetBus (antigo)









Pode acontecer que o hacker tenha diante de si um ficheiro que está protegido por palavra-passe. Para “quebrar” as senhas existem programas específicos (password crackers), cada um especializado no software para o qual foi programado. Há de tudo: para quebrar senhas do Word, Pdf, Zip, do próprio Sistema Operativo, etc. Nem sequer vou aqui sugerir alguns, uma vez que a oferta destes programas é imensa. Escreva no Google “password cracker” seguido do nome do programa que pretende desvendar (por exemplo, “password cracker Windows”, para ter diante de si vários programas que descobrem as palavras-chave do famoso Sistema Operativo da Microsoft).

Invadir uma página da Web pode passar por utilizar métodos já aqui descritos (como os exploits, para invadir o servidor onde está hospedada a página), a Engenharia Social (a tal “lábia” que leva uma pessoa a dizer o que não deve), um Cavalo de Tróia (o hacker tem acesso ao PC da vítima e, consequentemente, às palavras-chave) ou então utiliza um processo denominado phishing, que consiste em criar uma página de login igualzinha à que o utilizador vê diariamente e dela se serve para estabelecer ligação com a página Web. O resultado é que a vítima vê uma página que julga ser real e na verdade é um embuste criado pelo hacker. Introduz os seus dados, como está habituado a fazer, e estes são enviados para um e-mail que pertence ao bandido. Não irei aqui descrever ao pormenor como se cria uma destas páginas falsas. Em traços largos, basta copiar para o seu computador a página de login do site (clique com o botão direito do rato na página e escolha “guardar página como”) e, uma vez tendo uma cópia no seu computador, pode alterar o HTML de forma apropriada. Depois, hospeda o seu “trabalhinho” num servidor e envia para a vítima o link da sua página falsa (por e-mail, por exemplo). Ao clicar no link, o utilizador verá uma página de login igual à que usa todos os dias. A diferença é que, ao inserir o nome de utilizador e a password, estas serão enviadas ao assaltante.
Ao descrever estas técnicas procurei dar-lhe uma ideia de como “a coisa funciona”. Há inúmeros recursos na Internet, incluindo aulas em vídeo que explicam de forma muito simples como se executa os processos aqui descritos e outros. Há cursos inteiros de hacking.
Finalizo esta breve introdução sugerindo-lhe dois fóruns, em Português do Brasil, que lhe poderão ser úteis.
http://www.forum.darkers.com.br/
http://www.invasao.com.br/

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

A Ideologia do Humano

A Ideologia do Humano
A construção social do atributo humano

Humano é algo que é único. Não digo “alguém” porque os objectos, animais e plantas podem adquirir a mesma qualidade. Ser humano é mais uma característica (ou conjunto de características) do que uma essência independente do espaço e do tempo, do observador ou de uma perspectiva.
Ser humano é uma ideologia. Repare, caro leitor, que eu utilizo a palavra “ser” como verbo e não como substantivo sinónimo de “ente”.
É-se humano quando os outros reconhecem em nós certas propriedades. A primeira é a da singularidade. Daí que um clone não se enquadre na ideologia. Tudo o que foi alvo de replicação cai fora deste âmbito. Outra das condicionantes da ideologia aponta para uma história natural. Isto é: um humano tem um passado que o moldou, uma história que não foi projectada por design, é acidental e complexa. Não foi produzida em fábrica nem em ateliê, mas gerada pelo trajecto social. Isto quer dizer que nada tem o atributo humano sem que lhe seja reconhecida uma genealogia.
Outra característica aponta para os humanos como unidades discretas; ou seja: seres com limites, com uma forma autocontida. Cada um é uma unidade. E dentro dessa unidade existe um universo com contornos bem definidos.
Os animais também podem ser humanos, desde que lhes sejam atribuídas as características da ideologia. Um gato é visto pela dona como um ser original, diferente de todos os outros gatos. Tem uma história de vida, nas mão da dona ou fora delas.
O aspecto mais importante da ideologia do humano é a existência de emoções, sensações ou sentimentos, que se manifestam através de reacções aos estímulos que lhe são enviados pelo meio circundante. Como cada um reage de maneira diferente aos mesmos estímulos, dizemos que tem uma “personalidade” própria. Os comportamentos, mais ou menos habituais, contribuem para que o observador trace um perfil, ao qual chamamos carácter. É a forma física e comportamental que faz com que os observadores atribuam um carácter específico a cada Ser. Portanto, humano é um atributo que pode ser reconhecido em qualquer Ser, desde que tenha carácter.

Ver também o texto Humano neste blogue

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

O Poder da Aparência Pessoal

Poder pode ser definido como a capacidade de influenciar o comportamento dos outros. Há inúmeras formas de Poder, do económico ao político, do retórico ao coercivo. Neste breve artigo irei descrever o poder da aparência pessoal. Talvez lhe seja útil, caro leitor, aprender como pode influenciar o comportamento dos outros manipulando apenas a sua maneira de se apresentar.
Comecemos pela integração num determinado grupo, aquele no qual pretende conquistar poder. Nunca escolha uma aparência que seja demasiado diferente da norma do grupo. Repare na maneira como se vestem, no cabelo, nos gestos e nas opiniões. Procure mimetizar os padrões que o ajudarão a ser aceite pelo grupo. Depois, observe os critérios que lhe darão um estatuto superior (marcas de roupa, acessórios, etc). Use, sempre que possível, os símbolos de status próprios do grupo. Exceptuando as comunidades juvenis, um cabelo curto e bem tratado dar-lhe-á um aspecto credível. As pessoas confiam mais num homem com o cabelo bem aparado, penteado e fixo do que num cabeludo de aspecto negligé, que é muitas vezes sinal de desleixo.
Se quiser passar uma imagem de maturidade acrescente umas ligeiras entradas brancas ao seu penteado. Nunca pinte o cabelo todo de branco ou com fios brancos dispersos, uma vez que pode ser interpretado como sinal de velhice ou decadência.
Sorria sempre que possível. Um sorriso abre portas. Faz com que uma pessoa seja mais atraente aos outros e facilita a criação de empatia.
Quando gesticular use gestos abertos. As suas mãos devem partir de dentro para fora e mantenha a região peitoral exposta, a sobressair na sua figura. A pose revela quase tudo. Um indivíduo encolhido e de gestos tímidos passa despercebido ou é desvalorizado. Um sorriso descontraído, gestos abertos e o peito para fora exprimem audácia, cativam o público e elevam um orador ao estrelato.
Escolha bem as cores do vestuário que vai utilizar. Opte por uma cor que condiga consigo. Pergunte a pessoas de confiança qual é a que lhe fica melhor. Nunca faça do seu corpo uma miscelânea de cores. Vista-se todo da mesma cor ou, no máximo, duas. Prefira cores neutras ou frias consoante o seu objectivo. Pode optar por tecidos com ou sem brilho, dependendo do impacto que quer causar no público. A classe política prefere usar fatos azuis-escuros por transmitirem sobriedade e rigor. São agradáveis à vista e encaixam no estereótipo do “colarinho branco”, o gestor que trabalha arduamente num escritório ou gabinete.
A diferença entre um político e um empregado de escritório (ou funcionário de um banco) está no fato que cada um usa. Os políticos optam pelo azul-escuro acetinado. São fatos que “marcam”, impressionam quem os vê. O vulgar funcionário de escritório veste fato e gravata porque é a farda obrigatória e isso nota-se. A gravata mal escolhida, o corte do casaco que não assenta totalmente, o xadrez horrível de alguns tecidos, revelam o subalterno e diferenciam-no do governante, membro da oligarquia, senhor das decisões principais.
O bigode é hoje em dia um anacronismo. No passado era um símbolo de masculinidade e servia para disfarçar narizes pouco estéticos. Actualmente ninguém quer usar bigode. Esconde parte da expressão facial e aparece associado às classes sociais mais baixas. O homem contemporâneo dispensa a pilosidade facial e os arcaicos pelos do peito a sair da camisa, que dão uma aparência kitsch se forem complementados por um cordão dourado, com ou sem crucifixo.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Consumo: uma Introdução

Um artefacto é qualquer coisa que tenha sido produzida pelo Homem. Um artefacto de consumo é um objecto cuja utilização não é feita pelas mesmas pessoas que o produziram.
O consumo em massa só apareceu quando as primeiras unidades fabris começaram a operar. A razão está na capacidade de replicar inúmeras vezes o mesmo objecto. A produção em massa diminui o custo de fabrico de cada mercadoria. Banalizou-os, reduzindo-os ao mínimo valor económico. Distanciou-se do valor da singularidade e da raridade.
A produção em massa conduziu à procura de novos mercados, satisfazendo as necessidades dos consumidores ou inventando necessidades que não existiam. A urgência de escoamento dos produtos massificados conduziu a alterações comportamentais da população. Ninguém consumia Corn Flakes antes dos produtores de milho implementarem novas técnicas agrícolas, que fizeram aumentar exponencialmente a produção. Ninguém tinha necessidade de ter relógios de várias cores e formatos, cada um a condizer com um tipo de roupa, antes da Swatch popularizar o conceito de relógio-adorno.
Foi a produção em massa que, através da publicidade, alterou o comportamento de consumo das populações. Por sua vez, os novos hábitos de consumo alteraram os padrões diários e a cosmovisão das sociedades ocidentais.
Através de processos culturais, a publicidade manipulou a nossa consciência da realidade. Em regra, a publicidade tenta criar na mente do público uma associação entre o produto e um ideal que já existe (residual). O ideal hegemónico de masculinidade tem servido, por exemplo, para conferir uma identidade específica (masculina) à mercadoria que pretende vender. Máquinas de barbear, after-shave, automóveis e tabaco são alguns bens de consumo que, à luz do público, reforçam a identidade masculina de quem os usa. Digamos que um indivíduo se sente “mais homem” por usar uma determinada colónia ou fumar a marca X. O mesmo acontece com outras identidades pessoais. A feminilidade, a sensualidade, a juventude, a atitude desportiva, o estar na moda, são alguns exemplos. As mercadorias que consumimos marcam muito a noção de quem somos. Por vezes temos a sensação que somos o que consumimos.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

O Passado no Presente

O tema do passado é fundamental. Em termos ontológicos, o passado já não existe. O que existe é a memória (que é mutante) e as consequências que as acções do passado têm na forma como o presente está estruturado.
Quando um movimento procura estabelecer um novo paradigma político, um dos processos mais eficazes é a manipulação da memória.

Temos que deixar de pensar na história como um conjunto de acontecimentos que existem de per si. A imagem que temos do passado é sempre perspectival; ou seja, é sempre uma construção cultural que parte do ponto de vista e dos interesses de quem detém o poder de produção da história.

Qualquer regime baseia-se sempre num conjunto de parâmetros culturais, numa mentalidade (ou visão do mundo). Destes parâmetros faz parte a memória histórica. Daí que qualquer mudança política seja sempre precedida de uma mutação espiritual. É que para chegar ao poder não chega fazer um "putsch". É preciso que o novo regime faça sentido à luz do sistema de valores dominante. Isto porque um regime, ainda que não seja populista, precisa de ter nas suas mãos o coração de uma parte significativa da população.

Quando se pretende agir politicamente há três atitudes possíveis em relação ao passado:
- A ruptura absoluta, característica da modernidade como fenómeno cultural. Em nome de um certo conceito de progresso, a modernidade procurou "arrumar" com o passado para um canto (religião, tradições, etc).
- A evolução, no sentido de aperfeiçoamento, do passado. Este processo foi escolhido por Marcello Caetano a partir do momento em que tomou conta dos destinos da Nação. Actualmente também existem "renovadores". O trabalho destes indivíduos é quase sempre ingrato, quando tentam salvar um regime cuja entropia é irreversível.
- A restauração. Trata-se de criar uma ponte entre o presente e uma dada época histórica cuja memória nos provoca a sensação de saudade. Qualquer coisa que não esteja ligada à memória histórica é kitsch, dá-nos sempre uma sensação de artificialidade e "mau gosto".

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

Um Mundo Melhor

Disse Karl Popper que cada comunidade de seres vivos segue o mesmo fim: procurar um mundo melhor. Uma mudança de nicho ecológico, uma transformação interna que possa adaptar melhor a espécie ao meio circundante, a migração para um local onde o meio seja mais abundante…
Talvez a intenção inconsciente de Popper fosse a de universalizar a todos os seres vivos uma característica profundamente humana: a Utopia.
Todos nós procuramos o lugar perfeito ou tornarmo-nos perfeitos para o lugar que habitamos. A relação entre o Homem e o Ideal não pode ser datada. Existiu sempre. A procura da perfeição exprimiu-se logo nos primeiros hominídeos, com os seus utensílios e práticas de nomadismo. Depois, o Sagrado e o Mundo Espiritual perfeito.
Procurar um ideal parte do desejo de dominação: dominarmo-nos a nós mesmos e ao meio que nos rodeia, de maneira que estes se adeqúem a determinada forma.
Os ideais humanos focam quase sempre os mesmos temas: Liberdade, Justiça, Paz e Abundância. Paradoxalmente, atingir um ideal não dá serenidade, ou quando dá, é de curta duração. A mente voa, a imaginação divaga. E surgem novos ideais. Ainda que o Ideal seja atingido, o Ser Humano criará outro.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Humano

Há certos crentes que ficariam mais chocados se uma imagem ou estátua do seu ídolo fosse vandalizada do que se o vizinho fosse esbofeteado. Porque é que isto acontece? Porque o "humano" é um atributo que pode ser projectado noutros seres que não façam parte da definição biológica de Homo sapiens. Nós podemos sentir que algo é humano independentemente das suas características materiais (físicas). É como se o humano fosse um espírito que pode habitar um Homo sapiens, um ídolo ou até um animal de estimação.
O humano de que falo é um parâmetro cognitivo (inato) que se pode manifestar de forma diferente, consoante a vida social e afectiva de cada um. O problema é que este parâmetro pode ser manipulado de forma a valorizar alguns seres e a discriminar outros.
Humano é um ser dotado de alma. Utilizo a expressão alma sem conotações religiosas. Alma aqui é uma substância imaterial que confere propriedades específicas a algo: singularidade, capacidade de evocar nos outros sentimentos e emoções, não se esgota na compreensão humana, tem um lado obscuro, inspira a imaginação do observador e tem um atributo fundamental: vontade própria. Quem reconhecer estas características num objecto, num animal, numa planta ou num Homo sapiens, atribui-lhe humanidade.
Humano pode ser um rótulo, mas é um rótulo que defende os seres de potenciais abusos. A opressão começa com a desumanização, que pode ser expressa ou implícita, assumida ou inconsciente. Eu só consigo matar ou praticar certas crueldades a um ser se não o considerar humano. Há processos mentais que provocam o "desligar" da empatia e a objectificação do outro. Posso dar como exemplo a guerra. Nenhum soldado conseguiria alvejar o inimigo se não tivesse uma preparação psicológica prévia de desumanização dos soldados inimigos. Podemos fugir à questão e dizer que «humano é toda a gente», mas a verdade é que os nossos comportamentos muitas vezes demonstram que não somos assim tão abrangentes.

Ver também o texto A Ideologia do Humano neste blogue

O Centro Comercial

Os centros comerciais são hoje em dia muito mais que espaços de compra e venda de produtos. Fazem parte da rotina diária de milhões de pessoas em todo o mundo e cumprem inúmeras funções, para além das comerciais. Em meados da década de oitenta, os empresários que projectaram estes edifícios começaram a introduzir actividades lúdicas e serviços que não apenas tornavam viável a permanência mais prolongada dos clientes mas que também os atraíam como forma de ocupação dos tempos livres. Em primeiro lugar é possível passar um dia inteiro no shopping sem que isso implique ficar privado de outras necessidades. O cliente tem ao seu dispor um amplo parque de estacionamento (por vezes gratuito) onde pode estacionar o seu meio de transporte por tempo indeterminado, zona de restauração com serviço permanente, locais de apoio às crianças (fraldário, sanitários especiais, actividades lúdicas, etc), locais de convívio (por vezes com espaços verdes), pontos de acesso à internet e um autêntico exército de funcionários preparados para satisfazer as mais diversas necessidades dos clientes (informações, segurança, apoio a deficientes, são alguns exemplos).
Estas são as condições de base que possibilitam aos utentes uma sensação de confiança e descontracção. Não é necessário sair do edifício para satisfazer necessidades que vão do carácter fisiológico até ao profissional. Hoje em dia é possível ir trabalhar para o centro comercial, bastando ao utente sentar-se diante de um computador. Mas se o shopping cumpre estas funções tão objectivas (comércio, trabalho e satisfação de necessidades básicas) porque é que cada vez mais pessoas o vêm como espaço de lazer? Por um lado, estes locais foram aos poucos concentrando no seu interior actividades comerciais tradicionalmente associadas à descontracção, diversão e convívio. O tradicional café com esplanada transferiu-se para o centro comercial, tal como os jardins, as arcadas de jogos e os parques de diversão. Por outro lado, o centro comercial transformou-se de forma a ser pouco perceptível a separação entre o lazer e o comércio. A arquitectura e a decoração são cada vez mais atraentes e menos formais, a distribuição espacial das diversas actividades procura diluir as diferenças institucionais que cada uma cumpre. Daí que todo o espaço do centro comercial seja, nos dias que correm, encarado como zona de lazer. Ao fim-de-semana é frequente vermos famílias a passar dias inteiros no shopping. Convivem, tomam todas as refeições, fazem compras, visitam exposições (de pintura, escultura, etc), apreciam as últimas novidades nas montras das lojas, vão ao cinema e recreiam-se no parque de diversões.
Todas as actividades são percepcionadas como lúdicas, mesmo que inicialmente tenham uma finalidade objectiva (comprar uma ferramenta, fazer transferências bancárias, mandar consertar um electrodoméstico, trabalhar através da internet, etc). Como o espaço do edifício foi projectado para transmitir um ambiente de lazer, tudo o que existe no seu interior adquire o mesmo carácter. Trata-se de um mecanismo cognitivo (estético) através do qual o pequeno espaço integrado (a loja) adquire o mesmo sentido do espaço mais vasto (o centro comercial). A reforçar este mecanismo podemos encontrar a atitude dos transeuntes. É raríssimo encontrarmos alguém nestes locais com uma indumentária formal, uma maneira de andar tensa ou com grandes formalidades. Regra geral, os utilizadores “passeiam” descontraidamente pelos corredores, deambulam muitas vezes com um rumo pouco definido enquanto apreciam a paisagem do centro. Durante os momentos de convívio, passados à esplanada de um café ou nos inúmeros bancos distribuídos pelos corredores, a conversa é serena, com temas triviais e cheia de boa disposição. O comportamento descontraído dos utentes, sendo reflexo do clima propiciado pelo espaço, acaba também por ser mais um processo indutor de descontracção e informalidade. Quando entramos no centro comercial somos envolvidos por uma arquitectura e decoração informais e confrontados com uma paisagem humana constituída por indivíduos relaxados e alegres. O resultado é sentirmo-nos da mesma forma, passamos a fazer parte do mesmo ambiente lúdico.
Nesta altura podemos concluir que os centros comerciais são espaços altamente eficazes na produção de estados de espírito descontraídos e bem-dispostos. Mas este é apenas o início do processo, a base fértil na qual se irão desenvolver teias de relações sociais. A desinibição dos utentes do shopping dá lugar a comportamentos criativos e de procura de prazer. Trata-se do aspecto mais importante deste texto, que irei delinear de seguida.
Quanto maior for a oferta de serviços, comerciais e lúdicos, maior é a atracção exercida sobre os consumidores. A diversidade providencia ao cliente uma sensação de poder, o poder de escolher. Este fenómeno por si só já é gerador de prazer. No entanto, a diversidade cria a percepção de um espaço sem limites, que não é monótono. Um grande shopping possibilita um número quase infinito de percursos. No mesmo espaço, cada visita oferece uma experiência singular, consoante o trajecto percorrido.
Apesar do número de lojas ser finito, há sempre remodelações. Há lojas que fecham e cedem o espaço a outras, contribuindo para quebrar a monotonia e renovar a paisagem do centro comercial.
A paisagem humana é sempre diferente. Em cada visita é possível apreciar novos transeuntes, que se passeiam pelos corredores e constituem um interesse visual muito particular. Consoante os seus interesses, o explorador urbano pode contemplar os dotes do sexo oposto, tomar consciência da indumentária característica de cada visitante, analisar os “tipos” corporais e sociais predominantes no espaço à sua volta, mas também se pode mostrar. Através do vestuário e da postura corporal, qualquer indivíduo consegue transmitir aos outros uma identidade particular. Por isso, o cliente habitual do centro comercial usa o espaço para se mostrar, para comunicar a sua identidade específica.
É nesta teia visual onde se cruzam valores de género, moda, atracção sexual, estatuto socioeconómico e outros, que se estabelecem relações sociais. Tudo num ambiente de informalidade. É possível “meter conversa” com outro transeunte ou com as pessoas que exercem a sua actividade profissional no interior do centro comercial. São relações “leves”, descontraídas, que podem durar alguns minutos ou vários anos. Também é comum transportar para o shopping relações sociais que nasceram noutros contextos. Uma vez que o centro comercial oferece um ambiente lúdico, os amigos, as famílias e os casais procuram estes espaços para ocupar os tempos livres fugindo aos ambientes formais e monótonos do seu quotidiano.
Por estas razões, um centro comercial é muito mais do que um simples aglomerado de espaços de transacção económica. É um universo próprio de relações sociais, dinâmico e sem forma (isto é: sem limites, inacabado). O centro comercial é uma narrativa aberta e, por isso, exerce fascínio sobre tanta gente. Qualquer pessoa pode escrever mais um capítulo na vida daquele espaço, ou criar a sua própria história. É um local para ver e ser visto, para ser produtor e produto da paisagem urbana.

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Pornocracia: aspectos psicológicos e consequências

pornocracia (do grego porne, prostituta e kratein, governo)

A expressão “pornocracia” é frequentemente utilizada para designar um período na história do Papado que se estendeu da primeira metade do século X, com a instalação do Papa Sérgio III em 904 por sessenta anos, e terminou após a morte do Papa João XII em 963. Nesta fase, os Papas eram fortemente influenciados por mulheres, suas concubinas, cujo poder real ultrapassava largamente o dos homens que ocupavam cargos de liderança. Graças aos favores sexuais que prestavam eram nomeadas para postos-chave da oligarquia da Igreja, tendo mesmo conseguido a criação de cargos até então inexistentes, como forma de retribuição (tráfico de influências).
(Ver o caso de Marozia, amante do Papa Sérgio III http://www.infoplease.com/ce6/people/A0831924.html)
Em todas as sociedades podemos encontrar formas de pornocracia e seria utópico da minha parte propor um modelo social imune a este género de corrupção. O que importa é entender os mecanismos sociais e psicológicos que o geram e mantêm.


Aspectos psicológicos

A maioria dos cargos de direcção é ocupada por homens com mais de 45 anos. Muitos atravessam a chamada “crise de meia-idade”, um período de transição entre a juventude e a velhice. Nesta fase de vida, o homem sofre um decréscimo dos valores hormonais (sobretudo de testosterona), o que se reflecte na diminuição do vigor físico e em alterações psicológicas (mudanças de humor, fragilidade emocional e problemas de auto-estima). A “crise” chega quando o homem maduro começa a questionar o seu próprio valor e a sentir-se decadente.
Como a auto-estima é um dos pilares fundamentais do equilíbrio psicológico, o homem de meia-idade produz fantasias tentando fugir à sensação de decadência. Alguns pintam o cabelo, fazem correcções cirúrgicas, recorrem à cosmética e adoptam socialmente uma postura jovial. No entanto, estas “muletas” psicológicas não são suficientes para compensar a sensação de velhice e a necessidade de afecto. A diminuição hormonal e a procura da juventude perdida fazem com que o homem em crise de meia-idade precise de estímulos cada vez mais fortes e procure pessoas jovens para se relacionar social e sexualmente.
Alguns conseguem ainda seduzir mulheres jovens, mas a maioria já não tem capacidade de atracção suficiente. Por essa razão, recorrem a estratagemas para se conseguirem relacionar com elas.
A “prostituta de esquina” não satisfaz os seus desejos. O acto sexual efémero, mecânico e puramente corporal, não é o que este homem procura. A prostituta oferece apenas uma experiência semelhante à masturbação: não tem contexto social, afectivo nem levanta o ego. É degradante, porque dá a sensação que ele só consegue ter companhia abrindo os cordões à bolsa.
O que ele quer é uma relação com alguém que tem metade (ou um terço) da sua idade. Nessa relação ele sentirá que ainda tem valor como homem e fá-lo-á experienciar a sensualidade da juventude. Numa palavra, o homem de meia-idade quer ter uma “namorada”.
O problema é que ter uma namorada entre os 18 e os 25 anos nem sempre é fácil para quem já tem uma barriga respeitável, umas rugas pronunciadas, papos nos olhos e está completamente “por fora” dos assuntos que interessam à juventude.
Para ultrapassar este dilema, o homem de meia-idade inventou um estratagema que depende essencialmente da capacidade de se iludir a si próprio e embarcar em fantasias. Ele arranja uma amante e em troca paga-lhe as contas e oferece favores. As despesas da casa, luxos, transporte diário, viagens e compras de diversa ordem ficam por sua conta, assim como cunhas para arranjar emprego ou ascender na empresa.
No seu íntimo, ele sabe que as suas qualidades como homem não são suficientes para manter aquela mulher ligada a si. Por essa razão, ele próprio toma a iniciativa de oferecer os seus préstimos à jovem que aceitou ser sua amante. No entanto, procura justificar as ofertas que faz, criando uma ilusão. As justificações são normalmente de teor paternalista, do tipo «eu tenho muito dinheiro e devo ajudá-la porque ela precisa». Desta forma, ele convence-se que tem “uma protegida”, o que salvaguarda o seu ego. Ser protector de alguém é muito menos indigno do que ser cliente assumido de uma profissional (prostituta).
A relação protector-protegida assume diversas formas consoante a natureza dos participantes. Por vezes é protectora-protegido (gigolô) e outras protector-protegido (homossexual). Em qualquer dos casos existe uma relação de prostituição camuflada, entre um indivíduo mais velho em crise de meia-idade e outro mais novo que não se importa de colher benefícios em troca de uns favores sociais e sexuais.
O modelo que mais contribui para a pornocracia é o de protector-protegida, pelo simples facto de existirem mais homens em situação de oferecer cargos nas instituições. A realidade de um país ser controlado por homens em crise de meia-idade cria necessariamente uma estrutura pornocrata. As protegidas entram nas instituições de forma discreta, de olhos postos no chão, para depois se estabelecerem e passarem a ter capacidade de interferir (e, por vezes, comandar) o rumo dos acontecimentos. Na maioria dos casos, o poder destas prostitutas camufladas deriva do poder de sedução que elas têm em relação aos homens que controlam a instituição, e do conhecimento dos “podres” que eles escondem. Como tal, sedução e chantagem são dois elementos preponderantes da pornocracia.

A pornocracia como ideal

Tudo pode ser elevado à condição de ideal e racionalizado de forma a constituir uma “filosofia”. O Marquês de Sade demonstrou-o, pegando no deboche e transformando-o na “filosofia de alcova”. No meu entender, este processo não passa de uma justificação (ou “intelectualização”) da bandalheira mais primária.
O estado de pornocracia também pode passar por este processo de racionalização, graças à noção de que todas as relações humanas devem ter um valor de mercado. Tudo o que faça parte da existência humana pode ser comercializado e o que não puder ser transformado numa mercadoria não tem valor intrínseco. A derradeira ambição do pornocrata consiste em “elevar” a prostituição ao nível de ideal.
Por parte de quem se vende também surgem justificações. A mais comum é a do “realismo”: «a vida é assim mesmo e não podemos ser líricos nem utópicos». Temos que nos “fazer à vida” porque isto não é nenhum mar de rosas.

Consequências da pornocracia

A pornocracia passa a ser um modelo social. «Se todos o fazem porque é que eu não hei-de fazer?» - diz o cidadão para si mesmo, ao sentir-se tentado pela “mercadorização” da afectividade. A primeira consequência da pornocracia é o rebaixamento dos padrões morais e a sua relativização.
Mas há mais consequências. A integração de concubinas nas instituições diminui a qualidade dos recursos humanos e perverte a normalidade das relações de trabalho. O centro de poder é deslocado dos órgãos formais para a teia de relações entre os protectores e as protegidas. As decisões passam muitas vezes a ser tomadas pelas concubinas e os dirigentes relacionam-se com os subalternos de forma injusta, concedendo privilégios a umas e retirando direitos a outros. Cria-se um mal-estar no local de trabalho e comummente surgem facções entre os trabalhadores. O ambiente é de ódio permanente e os conflitos sucedem-se. Quando o local de trabalho está totalmente corrompido já nada funciona segundo parâmetros formais. Todos têm como prioridade assegurar a sua posição e o zelo é posto de lado.
Do lado de fora ficam os profissionais habilitados a desempenhar as funções que foram usurpadas pelas concubinas. Contribuem para aumentar as filas nos Centros de Emprego e o peso da Assistência Social na despesa pública. Como o tráfico de influências nem sempre é discreto, os profissionais que foram preteridos sentem-se injustiçados e impotentes à medida que deparam cada vez mais com concursos viciados.
O homem de meia-idade que estabelece uma relação de concubinato está destinado à desilusão. Quando a concubina deixa de precisar da influência do protector, ela “migra” em busca de novos desafios. Finalizada a relação, o homem de meia-idade despenha-se do alto das suas ilusões. O romance que imaginou não passava de uma miragem e só lhe resta a dura realidade: deixou-se usar voluntariamente. A sua auto-estima desce a níveis ainda mais baixos do que aqueles onde se encontrava antes de a protegida surgir na sua vida.
A protegida também não sai incólume da relação. Ainda que se sinta “por cima”, uma vez que controlou afectivamente o protector, há marcas psicológicas que permanecem quando o contacto íntimo não é acompanhado de envolvimento emocional. Ter relações sexuais sem gostar do parceiro é sempre uma experiência traumática e conduz à diminuição da auto-estima. Quer as prostitutas profissionais, quer as “amadoras”, têm sintomas relacionados com a degradação da auto-imagem: sentem-se sujas, vêm-se como um objecto, perdem a libido e, por vezes, passam por estados depressivos ou de apatia.

Quando a ex-concubina chega ao poder

Preparem-se porque vão rolar cabeças! Todos aqueles que têm conhecimento dos métodos que ela utilizou para ascender na instituição estão em perigo, exceptuando os que prestam vassalagem à recém-chegada autocrata e que demonstram inequivocamente não representar oposição. Os alvos predilectos são, em primeiro lugar, os trabalhadores mais competentes, os que podem “fazer sombra” e demonstrar a incapacidade natural da usurpadora.
Como ninguém pode iniciar uma guerra sozinho, a ex-concubina vai começar a bater às portas, à procura de aliados. Umas permanecem fechadas, mas há outras que se abrem. Há sempre alguém que, motivado pela inveja ou por ódios antigos, aceita aliar-se ao novo poder, para se vingar e para reforçar a sua posição na instituição.
Os novos aliados irão ser os executores materiais da oposição à pornocracia, deixando a ex-concubina camuflada. Esta raramente ataca alguém directamente, preferindo imitar a raposa em vez de correr o risco de se portar como um leão. Os seus inimigos mais desatentos sofrerão ataques cuja origem desconhecem e, não identificando as verdadeiras razões que os motivaram, tardarão a retaliar.
Como o ideal de justiça nunca uniu nenhum grupo social, a oposição tem os dias contados. Os opositores permanecerão dispersos, desmoralizados, enquanto o novo status quo toma conta de todas as relações dentro da instituição. Os poucos opositores, se ainda existirem, serão alvo de campanhas difamatórias, ameaças, e tudo o mais que sirva para os destruir animicamente. O novo poder vai andar à procura de pretextos para os expulsar da instituição: delitos menores caso os tenham cometido, transgressões forjadas ou induzidas pelos usurpadores. A guerra não terá fim até ao momento que a pornocrata possa reinar sobre a terra queimada, sobre os destroços de uma oposição rechaçada.
Quando há mais do que uma ex-concubina na instituição, não é habitual haver competição entre elas. Existe uma espécie de “cortesia profissional” entre corruptos que favorece as boas relações. Existe normalmente uma fêmea-alfa que influencia todas as outras, mas que as respeita e protege. Nesta fase, a instituição já perdeu há muito a sua razão de ser, substindo apenas como covil de raposas cujo principal interesse é a troca de influências e a manutenção de uma fachada de respeitabilidade perante todos aqueles que se encontram fora do círculo institucional.
Não sei se o leitor deste breve artigo tem estado atento ao panorama institucional português. Não me refiro aos escândalos que fazem vender jornais, mas sim ao funcionamento quotidiano das instituições públicas e privadas. Observe os seguintes sinais:
- O dirigente formal (director, presidente…) não controla o funcionamento da organização.
- Há funcionários(as) manifestamente incompetentes e sem habilitações em lugares privilegiados.
- Nas chefias existe pelo menos um homem de meia-idade que mostra sinais invulgares de agitação quando está ao pé de funcionárias mais jovens (sobretudo mulheres vistosas). Costumam exprimir um contentamento fora do comum e procuram o contacto físico (abraços ou ligeiros toques corporais). Por vezes, a euforia é acompanhada de ligeiros tremores.
- Há funcionárias que demonstram um à-vontade anormal (falta de zelo e de sobriedade) no local de trabalho.
- Há pelo menos um membro das chefias que demonstra temor perante funcionários subalternos.
- No caso de se tratar de uma instituição com atendimento ao público, nota-se uma preocupação excessiva, por parte das chefias e/ou dos funcionários, em transmitir “boa imagem”. Por vezes, o utente de uma empresa está perante um cenário de tal forma forjado, que chega a ser ridículo dado o grau de perfeição que o grupo de trabalho pretende demonstrar.
- A ascenção meteórica de um funcionário recém-chegado à instituição.
- A empresa sofre de graves problemas económicos apesar de ter condições de mercado e uma conjuntura concorrencial favorável. Há empresas que estão à beira da falência sem razão nenhuma aparente.

Se tem estado atento ao funcionamento quotidiano das organizações, provavelmente já se deparou com as situações descritas anteriormente. Se no seu local de trabalho existem pelo menos duas destas manifestações, meu amigo, prepare-se porque estão a chegar tempos difíceis…

Sexta-feira, Março 30, 2007

Democracia Parlamentar: problemas de um regime

No dia 1 de Fevereiro teci uma análise ao programa Grandes Portugueses que pode ser lida neste blog. Já lá vão quase dois meses desde que escrevi o tópico, no qual enfatizei que o voto em Salazar era um veículo de protesto, e vejo que só agora é que os “cérebros” deste país decidiram olhar para o universo de votantes e suas motivações identitárias. Confesso que fico espantado com a lentidão de raciocínio de certas figuras públicas da nossa praça.
Desde o início da iniciativa levada a cabo pela RTP que eu sei que Salazar seria eleito O Maior de Todos os Portugueses. Consegui prever o resultado não por ter dotes de profeta mas graças à facilidade em libertar a minha mente do país imaginário difundido através dos meios de comunicação social. Para se saber quem seria o vencedor deste concurso bastava prestar atenção aos portugueses que constituem o país real.
O que a classe política tarda em perceber é que a descrença no regime se está a generalizar. Não é o actual governo que está a ser posto em causa; nem são os partidos em particular. É o regime como um todo, na sua vertente de conjunto de seres humanos que exercem funções governativas e na vertente cultural de valores, mitos, visão do mundo e ideais, que se divorciou do mais comum dos cidadãos. O verdadeiro poder de um regime está no coração do homem comum.
É necessário entender que um sistema político é, sobretudo, um objecto cultural. A realidade concreta dos agentes políticos e das instituições é uma dimensão demasiado complexa, dinâmica e extensa para ser apreendida através da cognição. Como noutros aspectos da realidade, os seres humanos têm que proceder a uma filtragem da informação e construir uma imagem do regime de forma a que este seja cognoscível. A análise política tem falhado precisamente neste ponto. Há uma tendência para encarar os agentes e os acontecimentos como realidades essenciais, ou seja, que existem independentemente dos pontos de vista e das elaborações mentais dos sujeitos. Temos que passar a ver um regime como um objecto que faz parte da dimensão cultural de uma comunidade. Daí que a análise dos sistemas políticos só terá utilidade se tiver em conta os aspectos simbólicos, míticos, folclóricos e poéticos que dão existência social ao regime.
Houve o tempo em que o maior símbolo da democracia parlamentar, Mário Soares, despertava paixões generalizadas: da direita à esquerda, das elites às classes mais baixas. Nas últimas eleições presidenciais, o principal herói do regime levou duas estaladas na cara: a primeira dada durante a campanha por uma senhora que o acusou de ter pisado a bandeira nacional; e a segunda levou-a através da derrota estrondosa face ao oponente Cavaco Silva. O mito de Soares caiu e com ele a “magia” que seduzia multidões fascinadas pelo optimismo socialista.
Além de Soares, o regime teve mais dois “ídolos” da governação. O primeiro foi Sá Carneiro. Teve uma morte inglória e nem o seu assassinato mereceu a devida investigação. O segundo foi Cavaco Silva, que se afastou da vida política durante vários anos para mais tarde vir ocupar a função discreta e serena de presidente da república.
Sem os seus ídolos um regime já não galvaniza nem encanta. Os homens comuns que o constituem não têm o élan necessário para fazer sonhar as massas. E o pior acontece quando os homens comuns julgam que o regime funciona por si só (ou por inércia).
O folclore da democracia consistia num discurso épico reificado em grandes celebrações. Até aos anos oitenta era comum assistirmos a manifestações, exposições, festas e comemorações que exaltavam os valores do regime e enalteciam as vitórias obtidas contra os adversários do sistema político anterior. Com o passar do tempo estes eventos foram perdendo o fulgor.
Desde o 25 de Abril até meados dos anos oitenta o casamento entre a classe política e o povo era bastante afeiçoado. No entanto, relação foi-se degradando à medida que os políticos se foram desleixando e deixando de prestar atenção ao outro elemento do matrimónio… O excesso de confiança numa relação costuma produzir resultados desastrosos. A verdade é que o regime se transformou numa megera gorda e promíscua, com vícios de sopeira, motivada apenas por pequenos enredos que vão aparecendo na vida partidária.
O regime foi outrora uma bela jovem que, apesar dos caprichos e insensatez da imaturidade, conseguia estimular a nossa vertente fantasista e onírica. Sob o feitiço da paixão não há pormenores que tenham valor e, por isso, a democracia parecia perfeita. Mas quando se perde o encantamento só os pormenores importam! O povo português é, neste momento, um marido saturado, que só vê defeitos e que olha para todos os lados à procura de mulheres mais jovens ou de um amor antigo que lhe afaste o tédio.
É aqui que entra Salazar. O ex-presidente do conselho e o povo já andaram encantados de amor durante os anos trinta e quarenta do século XX. No entanto, o Estado Novo era uma daquelas balzaquianas que conhecem muito bem os defeitos do marido, sabem que a paixão não dura sempre e têm arte e sabedoria quanto baste para afastar os rivais que se aproximam. Mas há rivais com muito engenho e o amor não dura sempre. Lá conseguiram que este casamento acabasse num divórcio litigioso a 25 de Abril de 1974.
Durante mais de um ano, até ao dia 25 de Novembro de 1975, o recém-divorciado povo português teve um “affair” tumultuoso com uma namorada comunista que o andava a pretender há umas boas décadas. Não passou disso mesmo, um “caso” e nada mais, um relacionamento irreflectido próprio de quem se vê livre de um compromisso anterior. Acabaria por casar com uma pretendente menos sonhadora mas capaz de manter uma relação estável e duradoira. Chamava-se democracia parlamentar e vinha de uma família forte e endinheirada, espalhada pelos recantos da Europa e do Novo Mundo. Apesar de tudo, não há casamento que resista à passagem do tempo se não se transformar, se não se adaptar às novas realidades e encontrar novos estímulos. Embora fosse uma mulher madura e experiente, a Dona Democracia achou, a partir de certa altura, que tinha um casamento perfeito, com o “marido” seguro e sem rivais à vista. Triste engano de mulher casada. A esposa desleixada e carregada de vícios deixou de provocar a mais singela inspiração carnal. E o marido, no tempo em que as novidades escasseiam, começou a recordar a primeira mulher, aquela que o conhecia como ninguém. É verdade que a esposa salazarista limitava as paixões mas era uma fêmea de grande feição maternal e contornos telúricos que o protegia dos seus próprios erros e lhe dava o conforto da familiaridade. Hoje, o povo português decidiu ter uma relação extra-conjugal com a ex-mulher. Continua casado com a democracia apesar de não gostar dela e vai dormir, sempre que possível, com a cônjuge de outros tempos. Com ela recorda os bons tempos do passado, já esquecidos das mágoas que o levaram ao divórcio. É desta forma que os portugueses se voltaram a aproximar do salazarismo. Já não nos deslumbramos com os grandes discursos épicos do 25 de Abril e da aventura da liberdade. Já não encontramos ídolos no regime parlamentar. E sem qualquer encantamento assistimos enojados aos comportamentos viciosos e falta de asseio da classe política. Salazar representa um sistema, do qual já esquecemos (ou desvalorizámos) os defeitos e cujas qualidades parecem mais valiosas do que nunca. Cada vez mais a nossa primeira esposa nos parece a genuína e a mulher com quem actualmente continuamos casados enche-nos de mágoa e arrependimento.

Para analisarmos as causas que levaram ao divórcio com o Estado Novo torna-se necessário, mais uma vez, encararmos um regime como um objecto cultural. Mas desta vez vamos prestar atenção à componente emocional que anima a narrativa política de um regime.
É errado pensarmos que o golpe de 1974 se deu devido à guerra, à PIDE e à censura. Se houvesse uma relação de causa e efeito entre estas três impopulares realidades e um golpe de estado, então já se teriam dado n revoluções nos Estados Unidos, uma vez que estão sempre em guerra, têm vários serviços de policiamento político e a classe política interfere de sobremaneira nos meios de comunicação social. Então qual será a razão mais profunda que levou ao fim do Estado Novo? Eu penso que a estabilidade de um regime assenta na gestão das emoções colectivas. Não é por acaso que os governos mais “seguros” encabeçam sociedades onde existem mecanismos para fazer a catarse das emoções populares através de uma eficaz indústria de entretenimento e de acontecimentos públicos que captam a atenção e as energias do povo. O que liquidou o governo nacionalista de Marcello Caetano foi o ambiente de tédio em que se encontrava o povo português, especialmente as classes mais jovens. No princípio dos anos setenta, a religião, as canções populares, o futebol e a televisão já não eram suficientes para fazer o “escape” das vontades do povo. Obviamente são os jovens que acusam mais intensamente os sintomas da monotonia. Ora, em Portugal já tinham aparecido nos finais dos anos sessenta várias organizações de cariz comunista. Na década seguinte, a actuação dos comunistas intensificou-se junto dos estudantes, trabalhadores e militares com menos de 35 anos. Esta massa humana sedenta de acontecimentos emocionantes e que pretendia mudar o “cinzentismo” do “viver habitualmente” foi encontrar nas ideologias de esquerda uma promessa de aventura. O comunismo e o socialismo possibilitam à população uma vivência mais interventiva e emocionante do que a normalidade aborrecida das instituições tradicionais. É desta forma que a esquerda se estabelece como cultura contra-hegemónica e conquista o coração de uma parte significativa da população.
No contexto actual não se coloca o problema do tédio. Nem da fome generalizada, o que também serve para mobilizar os populares para as revoluções. Mas temos outra condição que é igualmente geradora de conflitos: a instabilidade social. Existem diversos factores nas actuais sociedades ocidentais que alimentam a sensação de insegurança no indivíduo. Tomem atenção: sentir insegurança não é o mesmo que ter medo. Medo tenho eu que o PittBull do meu vizinho me dê uma dentada. A insegurança é um mal-estar muito mais profundo e difícil de resolver. O sujeito que a sente tem dificuldade em identificá-la apesar de notar os sintomas e não se consegue livrar dela. A insegurança está sempre presente e interfere em todas as situações do quotidiano.
Quais as causas deste problema? Há factores que são comuns à generalidade das sociedades ocidentais e há outros mais específicos da realidade portuguesa. Vejamos alguns agentes causadores:
- O conhecimento está numa constante transformação e as mudanças tendem a acelerar. Ninguém sabe se o conhecimento que detém hoje vai servir daqui a 3 anos. O sujeito contemporâneo vê-se forçado a “reciclar” constantemente os conhecimentos para não ficar desactualizado. Ter conhecimentos inúteis significa ser incapaz de interagir numa sociedade altamente competitiva.
- O trabalho é cada vez mais instável e precário. Isto quer dizer que um trabalhador hoje não sabe se “amanhã” vai conseguir manter a qualidade de vida.
- Os meios de comunicação social instigam ao medo e ao pessimismo.
- As relações sentimentais são cada vez menos estáveis.
- A criminalidade tem vindo a aumentar.
- Os valores e os ideais humanos são cada vez mais fluidos e “relativizáveis”.
Em suma, os indivíduos dispõem cada vez menos de estruturas sociais estáveis nas quais possam assentar a sua vivência quotidiana e que lhes propiciem uma certa previsibilidade quanto ao seu futuro. É precisamente a capacidade de antecipar as condições futuras que faz com que uma pessoa se sinta segura. O problema não está no futuro ser mau, está em ser incerto. Os regimes parlamentares actuais proporcionam e mantêm a incerteza. Daí que exista uma cada vez maior apetência para o neo-conservadorismo. As pessoas olham para o passado com um certo saudosismo. O passado representa, sobretudo, a sensação de segurança que se perdeu.
Em jeito de conclusão, eu aproveito para mandar um “recado” a quem está preocupado com o futuro da democracia. Escusam de deitar as mãos à cabeça por Salazar ter sido eleito O Maior de Todos os Portugueses. Fazer manifestações contra o museu de Salazar ou grandes discursos contra a ameaça da extrema-direita são atitudes ingénuas e inconsequentes. Tentar defender a democracia com proibições ou com protestos que visam reprimir outras fórmulas políticas é tornar o regime ainda mais paradoxal. Abram as portas à crítica. Ganhem coragem e dignidade para pôr em causa o âmago do regime. Não se ressuscita um organismo com elogios e paninhos quentes. Por vezes é preciso levar uns murros no peito para o coração voltar a trabalhar e fazer o sistema voltar à vida.